Opinião | Um alerta para a esquerda: a disputa pela educação não acabou

Por João Paulo Gomes Gadelha*



Este artigo expressa a opinião do autor e busca contribuir para o debate sobre educação e disputa de narrativas

Do ponto de vista histórico, é difícil sustentar que a escola tenha sido neutra em algum momento, até mesmo nas primeiras ideias de escola, Mesopotâmia (edubba), Egito Antigo e também a consolidação da escola pública como conhecemos hoje, entre os séculos XVIII e XIX, principalmente influenciadas pelo Iluminismo e pela consolidação dos Estados Nacionais.

O próprio Paulo Freire defendia que a educação não é 100% neutra, ela vai envolver escolhas sobre o ensino, como ensinar e quais finalidades direcionar. Dermeval Saviani dizia que a escola é uma instituição histórica, ela vai se adequando conforme as suas necessidades.

Então a educação nunca foi neutra!? Ela sempre esteve no centro das disputas políticas, culturais e ideológicas. Quem forma professores, define currículos, produz livros didáticos e influencia o debate público ajuda a moldar a sociedade do futuro. Como historiador e professor, tenho refletido sobre uma pergunta que considero fundamental: a esquerda perdeu a disputa pela educação ou apenas deixou de compreender que essa disputa mudou de terreno?

Ao longo do século XX, a esquerda construiu uma identidade ligada à educação como instrumento de emancipação social. Luta anticolonial, emancipação feminina, luta contra o racismo, são algumas das relações que a esquerda ajudou a moldar. Só que temos que entender que diversas críticas surgiram com esse papel.

Só isso basta, a esquerda parou? O motivo da pergunta é porque, na minha opinião, a direita começou a ganhar força e construir uma narrativa educacional ligando e trazendo essa ideia de neutralidade política, e isso vem ganhando força com três propostas: Escola sem Partido, argumentando e levantando a ideia de “doutrinação ideológica”, escolas cívico-militares e ensino domiciliar (homeschooling).

Como professor de educação básica, posso afirmar que experiências como a da minha cidade, Sobral (CE), demonstram que políticas consistentes, continuidade administrativa e valorização dos professores podem produzir resultados expressivos.

Independentemente da posição de cada leitor sobre essas propostas, é inegável que elas ocuparam espaço no debate público. A produção de conteúdo, documentários, livros e materiais digitais ampliou esse alcance. A Brasil Paralelo é um exemplo de organização voltada para essa disputa de interpretações históricas e culturais.

Em 27 de novembro de 2024, assisti a uma reportagem no YouTube, feita pelo Intercept Brasil, sobre um dos maiores projetos da Brasil Paralelo, “Mecenas”, que a própria Brasil Paralelo descreve como uma iniciativa filantrópica voltada a ampliar o acesso à educação.

Já a reportagem afirma que esse projeto busca levar assinaturas para escolas e ONGs, dentre as instituições estão as que atendem crianças e famílias em situação de vulnerabilidade. Já chegou em regiões como Piauí, São Paulo e Natal (RN), no instituto chamado Recebs, que em sua plataforma defende o homeschooling, e a Brasil Paralelo utiliza um discurso de “Liberta famílias do progressismo”.

Nesse contexto, um dos problemas que ganhou força no governo Bolsonaro por parte da direita foi o negacionismo às ideias de Paulo Freire. Sempre é bom lembrar que essas críticas não surgiram nesse governo, já existiam há décadas em setores conservadores. Mas, a partir de 2018, ganharam muito mais força e visibilidade política, também impulsionadas por intelectuais como Olavo de Carvalho.

Grupos da direita negam sua importância e tentam formalizar a ideia de que o problema da educação brasileira é culpa desse autor. Em um documentário da Brasil Paralelo, a educadora Ilona Becskeházy reconhece Pedagogia do Oprimido como a obra mais conhecida de Paulo Freire. No entanto, concentra suas críticas em Pedagogia da Autonomia, que, segundo ela, funcionaria como um "manual de sabotagem da sala de aula" e daria ao professor uma "licença para não ensinar", ao priorizar o compromisso político em detrimento da transmissão de conhecimentos.

Na minha leitura de Pedagogia da Autonomia percebo que o aluno tem que pensar por conta própria, desenvolver consciência crítica, se tornar um sujeito ativo na sociedade e suas principais ideias estão ligadas a ensinar com respeito ao aluno, até porque cada ser tem sua realidade, o professor aprende também, a educação é uma prática para a liberdade e o aluno precisa questionar.

Como professor, continuo considerando atuais princípios como o diálogo, o respeito ao conhecimento prévio dos estudantes, a construção coletiva da aprendizagem e a educação como prática de liberdade. Na minha avaliação, talvez o maior desafio da esquerda hoje não seja apenas defender políticas públicas, mas voltar a disputar ideias, ocupar os espaços digitais e dialogar com a sociedade. A educação também é uma disputa de narrativas.

Então vamos pensar: A esquerda avançou nas políticas públicas educacionais! Mas, perdemos espaço na disputa por narrativas?



*João Paulo Gomes Gadelha é historiador, professor da educação básica, coordenador do Cursinho Popular Belchior e pesquisador das relações entre História, Música, Educação e Política.


Referências

  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
  • LOPES, Eliane Marta Teixeira; FARIA FILHO, Luciano Mendes de; VEIGA, Cynthia Greive (orgs.). 500 Anos de Educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica.
  • SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. Campinas: Autores Associados.
  • INTERCEPT BRASIL. Reportagem sobre o Projeto Mecenas da Brasil Paralelo, publicada em 27 de novembro de 2024.
  • BRASIL PARALELO. Informações institucionais sobre o Projeto Mecenas.
  • Documentário da Brasil Paralelo com participação de Ilona Becskeházy.

Esse texto foi publicado originalmente em 23 de julho de 2026

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