GetĂșlio Vargas: um legado de desenvolvimento e democracia

GetĂșlio Vargas anuncia a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)

CAROLINA MARIA RUY (*)

GetĂșlio Vargas foi o presidente que proporcionou mudanças mais profundas no Brasil. NĂŁo Ă© Ă  toa que sua tomada de poder ficou conhecida como revolução, a Revolução de 30.

Entre as principais mudanças destaco:

A criação do Ministério do Trabalho e Emprego, em novembro de 1930, uma das primeiras medidas tomadas após assumir o Governo Provisório.

A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), de 1Âș de maio de 1943, sua obra mais radical e transformadora.

E a construção de grandes empresas nacionais como a Companhia SiderĂșrgica Nacional (CSN), a Companhia Vale do Rio Doce (atual Vale) e a Petrobras, em um processo que impulsionou o crescimento econĂŽmico e social. Duas jĂĄ foram privatizadas e a Petrobras Ă© alvo da sanha privatista.

A indĂșstria, que atĂ© entĂŁo era dominada por setores como vestuĂĄrio e alimentação, começou a ganhar investimentos para produzir matĂ©rias-primas (cimento e aço, principalmente)1, mĂĄquinas e equipamentos.

AlĂ©m disso, seu governo criou os ministĂ©rios da SaĂșde e da Educação; o primeiro CĂłdigo Eleitoral, instituindo o voto secreto, o voto feminino, e desvinculando a direito de voto Ă  renda; o Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂ­stica (IBGE), em 1936, que fez o primeiro censo em 1940; o Banco Nacional de Desenvolvimento EconĂŽmico e Social (BNDES2), em 1952; e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em 1942, que proporcionou qualificação e ascensĂŁo profissional para trabalhadores de vĂĄrios setores.

AtravĂ©s destas açÔes, o Brasil passou de uma sociedade agrĂĄrio exportadora, com uma mentalidade escravista nas relaçÔes de trabalho, um mercado voltado para o capital internacional, principalmente inglĂȘs, um sistema eleitoral precĂĄrio, com voto aberto (o que levava Ă  prĂĄtica do voto de cabresto), para uma sociedade industrial e urbana, mais organizada, com mecanismos para conhecer o paĂ­s e criar polĂ­ticas pĂșblicas, com indĂșstrias para impulsionar o crescimento, com um sistema eleitoral mais civilizado e, por isso, mais democrĂĄtico, e, sobretudo, com leis para conter a exploração de carĂĄter escravista que era generalizada nas relaçÔes de trabalho.

SINDICALISMO

Na esteira da CLT, seu governo criou a estrutura sindical que permanece atĂ© hoje, ainda que sob constantes tentativas de destruição. A unicidade, prevista nesta estrutura, fez com que os sindicatos fossem mais politizados e nĂŁo concorressem entre si. A disputa se dĂĄ nas eleiçÔes sindicais e exige a participação dos trabalhadores, e nĂŁo entre sindicatos da mesma categoria na mesma base, o que seria uma concepção calcada na ideia da “livre concorrĂȘncia”. O modelo de unicidade permitiu o surgimento de sindicatos fortes e com influĂȘncia polĂ­tica.

Um ponto importante na histĂłria de GetĂșlio foi a Greve de 1953, que aconteceu em SĂŁo Paulo mobilizando categorias como tĂȘxteis, metalĂșrgicos, grĂĄficos e marceneiros. A greve sĂł foi resolvida com a intervenção do presidente, jĂĄ que os grevistas nĂŁo conseguiram negociar com o governador paulista. Nos seus desdobramentos, devido a questĂ”es maiores por trĂĄs do movimento, como o custo de vida e o diĂĄlogo com os trabalhadores, o ministro do trabalho, JosĂ© de Segadas Viana, foi substituĂ­do pelo entĂŁo deputado federal JoĂŁo Goulart (PTB/RS).

Em fevereiro do ano seguinte, Goulart propĂŽs um aumento de 100% do salĂĄrio-mĂ­nimo. Foi uma proposta radical que o tornou alvo do Ăłdio dos empresĂĄrios e da imprensa. Pressionado, Goulart renunciou ao cargo de ministro. O presidente, entretanto, garantiu o aumento no dia 1Âș de maio de 1954.

CARTA-TESTAMENTO

A postura de Vargas, ao assumir a defesa dos trabalhadores contra interesses das classes dominantes, fez com que o poder de fogo destas classes o pressionasse ainda mais. Até que, sob constantes ameaças, decidiu tirar sua própria vida em 24 de agosto de 1954, esfriando o clima de golpe que se formava.

A revolta da elite com o aumento do salĂĄrio mĂ­nimo Ă© apontada na Carta-Testamento que GetĂșlio Vargas deixou ao suicidar-se: “Contra a justiça da revisĂŁo do salĂĄrio mĂ­nimo se desencadearam os Ăłdios”.

A Carta-Testamento Ă© um dos mais importantes e reveladores textos polĂ­ticos da nossa histĂłria. Nela, GetĂșlio nĂŁo deixa dĂșvida sobre as conspiraçÔes que precipitaram sua morte, revela seu compromisso com os trabalhadores, suas expectativas para o paĂ­s e tambĂ©m preocupaçÔes acerca da dominação do capital estrangeiro sobre o patrimĂŽnio brasileiro.

CRÍTICAS ASSOCIADAS À VARGAS

Existem duas crĂ­ticas frequentes associadas Ă  GetĂșlio Vargas. Uma Ă© que ele teria “engessado” o movimento operĂĄrio, atrelando-o ao Estado. Outra Ă© a acusação de autoritarismo, chegando atĂ© mesmo, algumas pessoas a relacionĂĄ-lo ao fascismo, o que Ă© um erro (quando o Brasil, sob governo de GetĂșlio, entrou na 2ÂȘ Guerra, em 1942, entrou para derrotar o fascismo e o nazismo).

No prefĂĄcio do livro “O dia em que Vargas morreu”3, o jornalista Wilson Figueiredo diz que a CLT “amorteceu o choque de classes e dissipou o potencial de lutas num grupo social emergente”.

Da mesma forma, o sociĂłlogo LeĂŽncio Rodrigues, em “Capitalismo industrial e sindicalismo no Brasil” 4, diz que uma “sĂ©rie distinta de interferĂȘncias” suavizou o conflito de classes nas sociedades industriais”, referindo-se Ă  criação do MinistĂ©rio do Trabalho, da estrutura sindical e da CLT.

Os dois livros sĂŁo de 1966 e, talvez, naquela Ă©poca nĂŁo havia a dimensĂŁo do que foi a greve de 1953, da criação do Departamento Intersindical de EstatĂ­stica e Estudos SocioeconĂŽmicos (Dieese), em 1955, ou mesmo do impacto da CLT e de todas as mobilizaçÔes e conquistas sindicais que se deram sob vigĂȘncia desta estrutura sindical. Na RepĂșblica Velha, quando a exploração do trabalho assalariado se aproximava do abuso escravista, as reivindicaçÔes operĂĄrias restringiam-se Ă  sobrevivĂȘncia: salĂĄrio, que era um salĂĄrio de fome, e jornada de trabalho, que passava em muito Ă s oito horas diĂĄrias.

Sobre a ideologia de que ao pressionar a classe trabalhadora, ela se revoltaria, por trĂĄs da crĂ­tica sobre o “engessamento da classe operĂĄria”, cito um trecho do livro de Eric Hobsbawn “Como mudar o mundo”, que diz que a previsĂŁo de Karl Marx de que o colapso do capitalismo ocorreria mediante a “expropriação dos expropriadores” nĂŁo se confirmou no longo prazo.

Segundo ele: “Depois da dĂ©cada de 1840, Marx e Engels tampouco esperavam que o fenĂŽmeno [da industrialização] gerasse a pauperização politicamente radicalizadora em que depositavam suas esperanças. Como era Ăłbvio para ambos, nĂŁo havia, de modo algum, amplos segmentos do proletariado que estivessem se tornando mais pobres. Com efeito, um observador americano dos congressos operĂĄrios do Partido Social-Democrata AlemĂŁo na dĂ©cada de 1900 viu que os camaradas que deles participavam pareciam um ou dois pĂŁes acima da pobreza” 5.

AlĂ©m disso, em 1951 os comunistas se aproximaram do governo e passaram a influir diretamente na polĂ­tica e nos sindicatos. Importante considerar que, mesmo apĂłs o Estado Novo e a perseguição aos comunistas, LuĂ­s Carlos Prestes, ainda preso, orientou o Partido a dar apoio incondicional ao GetĂșlio contra o avanço do fascismo e depois o apoiou abertamente na eleição de 1950.

Sobre a questĂŁo do perfil autoritĂĄrio, pondero que nĂŁo podemos olhar o GetĂșlio dos anos de 1930 e 1940 com os olhos de hoje. Aquele foi um perĂ­odo de mudanças no mundo impulsionadas por eventos como os ecos da Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), a Revolução Russa (1917), a Crise EconĂŽmica de 1929, a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) e o inĂ­cio da Guerra Fria (1947). O governo Vargas protagonizou uma ruptura com um sistema econĂŽmico e social e conseguiu fazer com que essas mudanças incluĂ­ssem o povo no projeto de desenvolvimento.

Para isso precisou tomar medidas duras. Não se faz a revolução de forma diplomåtica e pacífica. A crítica que o acusa de autoritårio é tendenciosa e desproporcional frente a transformação que ele promoveu no país.

AVANÇO CIVILIZATÓRIO

Dez anos depois de seu suicĂ­dio, o golpe militar de 1964, na contramĂŁo da Revolução de 30, impĂŽs uma polĂ­tica econĂŽmica recessiva e uma relação de dependĂȘncia com os EUA. Tramado pela mesma composição de forças que conspirou contra Vargas, a ditadura promoveu vinte anos de atraso polĂ­tico, econĂŽmico, social e cultural.

Preconceitos e injustiças contra a memĂłria de GetĂșlio cresceram naquele contexto de ditadura e nos anos de aprofundamento do neoliberalismo. Por um lado, alimentou-se a ideia de que ele era “populista”, “autoritĂĄrio” e “manipulador das massas”, por outro o dogma do livre mercado se enfronhou por todos os setores da sociedade.

Em 2017, as reformas liberais de Michel Temer, com ampla retirada de direitos trabalhistas, tiveram efeitos nefastos sobre o paĂ­s, como a fragilização dos sindicatos, a precarização do trabalho, a diminuição do rendimento mĂ©dio da população, a desindustrialização, a elevação do nĂșmero de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, fome generalizada, alĂ©m do aumento da criminalidade e da violĂȘncia.

A reforma trabalhista, ao contrårio da CLT, retirou pessoas da classe média jogando-as na pobreza.

Mas a radicalidade das mudanças ocorridas sob os governos de GetĂșlio Vargas Ă© algo incontestĂĄvel. Ainda que feridos e ameaçados, seus maiores legados, as indĂșstrias, as instituiçÔes estruturantes, o CĂłdigo Eleitoral e, sobretudo, a CLT, permanecem como nossa base constitutiva e devem ser valorizados. Assim como, pelo bem do paĂ­s, seu projeto nacional desenvolvimentista deve ser continuado.

(*) Carolina Maria Ruy Ă© jornalista e coordenadora do Centro de MemĂłria Sindical.

1 Suzigan, Wilson “A Industrialização de SĂŁo Paulo: 1930-1945”.

2 Chamava-se BNDE, o S foi adicionado em 1982, com a criação do Finsocial.

3 Araken TĂĄvora, “O dia em que Vargas morreu”, Editora do RepĂłrter, 1966.

4 Rodrigues, LeĂŽncio “Capitalismo industrial e sindicalismo no Brasil”, 1966, Editora DifusĂŁo Europeia do Livro.

5 Hobsbawn, Eric, “Como mudar o mundo, Marx e o marxismo, 1840 – 2011”, Companhia das Letras, 2011.

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Publicado originalmente em Hora do Povo

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