DRA. MÔNICA MATIAS: A MORTE DA EXPERIÊNCIA

*Por Dra. Mônica Matias



Me formei em Direito há nove anos e desde então (como já havia passado na OAB ainda na faculdade) sou advogada militante. Desses nove anos, cinco foram majoritariamente dedicados a trabalhar como advogada empregada. Eu trabalhei em vários escritórios e fazia questão de adquirir o máximo de conhecimentos práticos que a faculdade não proporciona.

Eu lembro que não tinha medo desse título “empregada”, que para algumas pessoas do ramo jurídico soa constrangedor. Não tinha medo de andar a pé (eu não tinha carro) e de usar roupas que não eram de marca ou extremamente caras. A minha preocupação, o meu foco era adquirir acumular conhecimento da prática jurídica e eu sabia que não seria lendo livros ou assistindo vídeos de YouTube que eu iria adquirir esse conhecimento. Eu tinha que pôr as mãos na massa, tinha de passar pela experiência.

Hoje, quase uma década depois, noto como as coisas mudaram. O tempo, as pessoas...a lógica parece ser outra totalmente diferente. Os jovens advogados se formam na faculdade e já querem um escritório pronto e acabado, roupas caras, carro na porta... alguns deles ostentam em redes sociais uma imagem (ou miragem?) de luxo e riqueza. Outros, afoitam-se vendendo cursos para outros advogados... E tudo isso, com absolutamente nenhuma experiência!

É interessante notar que, desde a revolução industrial, as mudanças que percebemos no mundo são muito mais sensíveis e velozes. Se antes, para percebermos alguma alteração do corpo social levávamos séculos, hoje não mais. Uma geração que se formou academicamente há dez anos, por exemplo, consegue perceber claramente as diferenças em relação às gerações mais novas. Observando essas gerações (ditas mais novas), tenho percebido um fenômeno que se inaugura e que aqui ouso chamar de “morte da experiência”.

Se, há tempos, o filósofo Nietzsche disse que “Deus morreu, nós o matamos” para explicar como as ideologias seculares da modernidade tomaram a centralidade da vida humana em detrimento dos valores e das crenças religiosas (marcas da sociedade medieval), é possível também, pegando emprestado essa mesma figura de linguagem, dizer que a “experiência morreu, nós a matamos”.

Basta observar os discursos dominantes de que ‘é bom não ter filhos, afinal, fraldas são muito caras’, ‘morar em lugares isolados é melhor, para evitar vizinhos’, ‘vale a pena sair na rua com fone de ouvido (mesmo desligado) para evitar conversas “inúteis”’, ‘estudar para concurso (ainda que para um cargo que não se tenha afinidade) é melhor por causa da estabilidade’, ‘ser meu próprio “chefe” é melhor do que passar pelos constrangimentos de “ser CLT”’, ‘para que se relacionar/casar? Assim é que se evita traição, divórcio, briga’ etc.

Eu noto que o medo da dor apavora e, portanto, se faz de tudo para evitá-la. Só que quem evita a dor, evita a vida e mata a experiência.

Claro, nem todos terão as mesmas aspirações (casar, ter filhos, passar num concurso...). Nem todos precisam (ou devem) ter as mesmas experiências, cada pessoa é um universo particular. Mas por que tanta preocupação em se evitar a fadiga (parafraseando o carteiro Jaiminho?), se é a partir dela que proporcionamos a nós mesmos vivências que são próprias do humano? E o que será de nós sem essas vivências? No que se torna a vida humana, no final das contas, sem essas experiências?

O neoliberalismo tem incutido cada vez mais na mentalidade dos jovens a urgência pelo sucesso profissional e financeiro. Ninguém mais tem tempo de apreciar um pôr do sol, de ajudar um idoso a atravessar a rua, de andar, pedalar ou dirigir sem pressa, de observar o desabrochar de uma rosa e sentir o seu perfume, de ver a indignidade dos que moram nas ruas, de olhá-los nos olhos e até desejar-lhes um ‘bom dia’... esses regozijos e essas dores são a vida passando, lentamente, no seu ritmo, sem pressa. Mas, ao invés de nos permitirmos ser atravessados por essas vivências, as atropelamos.

A urgência pelo sucesso e pela linha de chegada tem feito com que os jovens queimem as etapas, percam momentos preciosos de suas vidas, não valorizem o “aqui e agora”. Assim, eles caem na desgraça do burnout, se afogam em remédios tarja preta para lidar minimamente com a ansiedade e se veem num mar de tristeza, vazio e solidão insuportáveis. E isso, porque a vida, o sentido dela, não se limita ao ideal absurdo de acúmulo desenfreado de patrimônio, típico da lógica individualista neoliberal.

Por que éramos tão bons no passado? No esporte, na arte, na cultura, na literatura, na música? Talvez porque nos permitíamos mais ter uma autopercepção de nós mesmos, de nossos talentos e nossas afinidades. Não havia tanta pressa em alcançar o sucesso, não havia essa obsessão em se tornar “milionário antes dos trinta”, esses não eram os objetivos. O objetivo era viver.

Afinal, quando foi que ‘viver’ deixou de ser o objetivo?


*Mônica Matias é advogada criminalista, com atuação exclusiva na área do Direito Penal. É graduada em Direito pela UVA, especialista em Ciências Criminais e Criminologia pela Universidade Estácio de Sá e PUC do Rio Grande do Sul. Atuou como assessora de Delegado da Polícia Civil e foi presidente da Comissão de Defesa das Prerrogativas da OAB/Sobral. É membro da Comissão de Estudos em Direito Penal da OAB/Ceará e coordena o Núcleo de Defesa da Advocacia Criminal (NuDAC), iniciativa voltada à valorização e proteção da atuação da advocacia criminal no município e região.


Postar um comentário

0 Comentários

Comments system