Bolsonarista como um “objeto antropológico” (ou “quando a esquerda olhará para si mesmo?)

Por Victor Araújo*



Em sua origem, a antropologia é uma ciência que nasce para estudar o “outro”, o “diferente”, aquele que não está inserido no “nós”, ou seja, aquele que não pertence a nossa cultura. Esse “outro”, nos primeiros estudos dessa ciência, era uma sociedade localizada distante geograficamente – porém, com o passar do tempo, a antropologia também passar a estudar aquilo que “está perto”.

Por volta de 2014 até os dias atuais cresceu de forma exponencial o interesse acadêmico em compreender o porquê o “bolsonarismo” estava ganhando tanta força. Principalmente no limiar das eleições gerais de 2018, a agitação era enorme: Jair Bolsonaro liderava (1)  as pesquisas  – posteriormente venceu o primeiro turno – e surgiam mais e mais explicações gerais sobre o fenômeno.

Próximo ao segundo turno, o desespero era total. Circulavam diversas mensagens no WhatsApp de vários cientistas políticas tentando dar luz à situação. Nesse percurso, o próprio “bolsonarista” começou a sentir especial, diferente, na medida em que era tão incompreendido. 

A esquerda passa a tratar o bolsonarista como um “objeto antropológico”, que deve ser estudado para, finalmente, conseguir compreender o porquê de seu voto. Quase nenhum acadêmico sabia quem era Olavo de Carvalho. O campo progressista foi pego totalmente de surpresa por algo que estava bem a sua frente, por não querer abrir mão de suas antigas teses baseadas no antagonismo PTxPSDB. 

Os tempos mudaram. Quando a esquerda entenderá que precisa mais compreender a si mesmo?

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(1) Conforme o G1, segundo o Datafolha, Bolsonaro liderava com 35% das intenções de voto. https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/04/pesquisa-datafolha-para-presidente-bolsonaro-35-haddad-22-ciro-11-alckmin-8-marina-4.ghtml

*Bacharel em Ciências Econômicas e Mestre em Sociologia. 


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