A retórica de campanha do Partido dos Trabalhadores (PT) frequentemente se ancora na defesa intransigente das empresas públicas e no combate feroz às privatizações, classificando-as como um "desmonte do patrimônio nacional". Contudo, a realidade da gestão federal tem revelado um pragmatismo que ignora as promessas de palanque assim que as urnas são lacradas. O exemplo mais recente e flagrante é o anúncio da "modernização" do Metrô do Recife (Metrorec), que, sob a roupagem de investimento público via Novo PAC, entrega a operação do sistema à iniciativa privada por três décadas, frustrando a base social que acreditou em um modelo de gestão estritamente estatal.
De acordo com o cronograma detalhado pelo Ministério das Cidades e pela Casa Civil, a União deve injetar cerca de R$ 4 bilhões para recuperar o sucateado sistema metroviário da capital pernambucana. No entanto, o que o governo evita enfatizar nas peças publicitárias é que esse aporte bilionário de dinheiro público serve para pavimentar o caminho para uma concessão administrativa de 30 anos. Essa estratégia de utilizar o Tesouro Nacional para "limpar" o ativo e renovar a frota antes de entregá-lo ao setor privado é o mesmo modus operandi criticado ferrenhamente pelo PT quando aplicado por governos de oposição, provando que o debate sobre a estatização é, para o partido, apenas um recurso retórico de conveniência eleitoral.
A guinada à direita na gestão de transportes gerou desconforto e críticas contundentes até mesmo dentro das fileiras aliadas. O jornalista Breno Altman, fundador do portal Opera Mundi e militante histórico do PT, não poupou palavras ao denunciar o modelo escolhido pelo presidente Lula. Em suas redes sociais, Altman classificou a medida como inaceitável:
"Condenável a 'modernização do metrô de Recife', anunciada pelo presidente Lula. A União investirá 4 bilhões (o que é bom) no curso da concessão por trinta anos à iniciativa privada (o que é péssimo), ao invés de um amplo plano estatal para ferrovias e metrôs, com transporte gratuito e de qualidade."
A fala de Altman expõe a ferida aberta entre a cúpula do governo e a militância que esperava uma política de transporte público encarada como direito social, e não como oportunidade de negócio para o mercado.
Em suma, o que se observa é um distanciamento deliberado entre o discurso militante das campanhas e a caneta executiva do Diário Oficial. Ao consolidar parcerias público-privadas (PPPs) em setores estratégicos como o transporte sobre trilhos, o governo federal adota o modelo que antes demonizava. Para o cidadão comum e para o eleitor do Nordeste, resta a constatação de que as bandeiras ideológicas parecem ter validade apenas até o dia da votação. No Pasquim Sobralense, seguimos atentos: a coerência política não deveria ser um acessório descartável, mas a base de qualquer governo que se pretenda verdadeiramente popular.
___________________________
Fontes e Referências:
- Portal Gov.br (Planalto):
Lula sobre acordo que moderniza metrô de Recife - Agência Brasil:
Governo federal vai investir R$ 4 bilhões em trens no Recife - G1 Pernambuco:
Acordo para estadualizar e iniciar estudo sobre concessão do Metrô do Recife - Ministério das Cidades:
Assinatura de ACT viabiliza modernização do metrô em Recife - Breno Altman:
(Dezembro/2025)Postagem oficial sobre a concessão do Metrorec - João Campos - Vídeo: Investimento de R$ 4 bilhões no Metrô de Recife
1 Comentários
Lamentável essa incoerência entre discurso político partidário e prática governista. Quem perde é o cidadão...
ResponderExcluirDeixe seu comentário ou sugestão. Sua opinião é muito importante para nós!